Discurso do Presidente do Conselho de  Administração na Cerimónia Comemorativa dos 80 anos da UNICOL

Ex.mo Senhor Secretário Regional da Agricultura e Alimentação, em representação de S. Exª o Sr. Presidente do Governo Regional dos Açores;

Ex.ma Senhora Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo;

Ex.mo Senhor Vice-Presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória:

Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa;

Ex.mo Senhor Diretor Regional da Agricultura, Veterinária e Alimentação;

Ex.mo Senhor Presidente do Conselho de Administração da Lactogal;

Ex.mos Senhores titulares dos Órgãos Sociais da Unicol e da Pronicol;

Ex.mos Delegados à Assembleia Geral da Unicol;

Exmos. Dirigentes Associativos;

Caros colaboradores;

Caros convidados

Antes de mais, quero agradecer a vossa presença nesta cerimónia simples com que assinalamos mais um aniversário da nossa cooperativa.

A entrada numa nova década justifica algum destaque.

Há precisamente 80 anos, na cidade de Angra do Heroísmo, nascia a Federação de Cooperativas de Lacticínios do Distrito de Angra do Heroísmo, que, no arranque, congregou 9 das mais de 2 dezenas de cooperativas agrícolas existentes na ilha.

O impulso para este movimento de concentração foi dado pela chegada dos militares americanos à base das Lajes, que determinou uma reorganização da oferta de lacticínios na ilha, em quantidade e em qualidade.

Ao longo das décadas seguintes, as cerca de meia centena de pequenas fábricas de lacticínios existentes na ilha Terceira agregaram-se à volta de dois núcleos principais: as de índole cooperativa, na Unicol, as privadas, nos Lacticínios da Ilha Terceira, Lda.

Em 1960, a “Federação“ passa a denominar-se UNICOL – União de Cooperativas de Lacticínios Terceirense, U.C.R.L., que chegou a reunir, em 1988, 23 cooperativas, uma das quais na ilha Graciosa. Recolhia 70% do leite da ilha Terceira e a totalidade do leite da ilha Graciosa.

Em 1978, a UNICOL junta-se à Nestlé para formar a INTERLACTO, com a multinacional suíça a ficar com 60% do capital e a UNICOL com os restantes 40%. Ao fim de cerca de 4 anos, a Nestlé abandonou a ilha Terceira tendo a Unicol ficado com o controlo total da Interlacto.

Durante cerca de uma década, a Unicol assumiu sozinha os três elos da cadeia dos lacticínios: a recolha, a transformação e a comercialização.

A entrada de Portugal na CEE, em 1986, induziu transformações profundas na sociedade portuguesa. No que aos lacticínios diz respeito, Portugal passou a estar abrangido por um regime de quotas de produção, estabelecendo, no entanto, quer para os Açores quer para o país, uma substancial margem de crescimento da produção.

A modernização que foi acontecendo em toda a fileira, impulsionou a produção primária que, por sua vez, obrigou as indústrias a adequarem-se quantitativamente e qualitativamente às novas realidades.

Simultaneamente, surgem as cadeias de distribuição moderna que passaram a concentrar grande parte da procura.

Todas estas transformações exigiam recursos financeiros e meios logísticos que ultrapassavam as capacidades da Unicol. Foi neste contexto, de crescentes dificuldades, que a Unicol estabeleceu uma parceria com a Proleite, consubstanciada, em 1992, na sociedade PRONICOL – Produtos Lácteos, S.A., na qual o grupo Proleite detinha 51% do capital e a Unicol 49%.

A fileira foi reorganizada, passando a Unicol a assumir a recolha do leite e o apoio aos produtores, a Pronicol a responsabilizar-se pela transformação e a Proleite pela comercialização fora dos Açores.

Em 1996, nasce a Lactogal através de um processo de concentração das atividades de transformação e de distribuição das três maiores organizações cooperativas do sector: a AGROS, a PROLEITE e a LACTICOOP. A participação da Proleite na Pronicol passa para a Lactogal, situação que se mantém volvidos 30 anos.

Entretanto, em 1994, a Pronicol havia adquirido a ELA – Empresa de Lacticínios dos Açores (sucessora dos Lacticínios da Ilha Terceira, Lda.) e a parceria Unicol / Lactogal passou a responsabilizar-se pela quase totalidade do leite das ilhas Terceira e Graciosa.

Em 2013, a Unicol passa a cooperativa de primeiro grau e a denominar-se UNICOL – Cooperativa Agrícola, C.R.L., ajustando-se, assim, a situação jurídica à realidade operacional dos anos anteriores.

A vida média de uma empresa em Portugal é de cerca de 10 anos. Chegar aos 80 anos com vida e saúde só pode ser motivo de orgulho para os fundadores e para todos aqueles que conduziram os destinos da Unicol ao longo de todo este tempo. Além do mais, sendo uma organização cooperativa, teve de conviver com o estigma de fracassos de organizações congéneres e com a debilidade de não poder reforçar a sua estrutura financeira com a entrada de capital por parte dos associados.

A sobrevivência e fortalecimento da Unicol só tem sido possível com uma gestão responsável e o aproveitamento de todos os apoios ao investimento que os sucessivos quadros comunitários de apoio disponibilizaram nas últimas 4 décadas.

A Unicol atual proporciona aos seus associados, e aos produtores em geral, um leque alargado de bens e serviços que vão desde a recolha do leite e a sua refrigeração, ao fornecimento de fatores de produção tais como rações, adubos, sementes, herbicidas, pesticidas, gasóleo agrícola, comercialização de equipamentos de ordenha, de tratores e máquinas agrícolas, serviços assistência veterinária e de inseminação artificial e arrolamento de animais para abate, sempre com a preocupação de garantir serviços de qualidade e a preços competitivos.

A comemoração de datas redondas como a que hoje celebramos é propicia a retrospetivas e a balanços que permitem pôr em perspetiva realidades nem sempre apreendidas e devidamente valorizadas.

Eis alguns dados relevantes:

– A Unicol faturou no ano passado 110,9 milhões de euros e posiciona-se, desde há muitos anos, entre as 10 maiores empresas dos Açores

– Tem papel relevante na vida dos seus 815 associados

– Emprega 208 trabalhadores a que se devem adicionar os 290 da Pronicol, numa lógica de parceria

– Em 2025, injetou na economia das ilhas Terceira e Graciosa 67 milhões de euros só em compras de leite, de carne e em salários

Mas sabem, qual era o volume de negócios da Cooperativa em 1985? Cerca de 6 milhões de euros! Em 40 anos, a faturação cresceu 18,5 vezes, o ativo líquido 12,3 vezes, o passivo 14,7 vezes e o capital próprio 10,3 vezes.

Devemos ter orgulho no percurso da Unicol, nas suas direções, nos seus administradores, no seu gerente e nos nossos colaboradores.

Mas quando se realiza uma feira Açores na Terceira, e vejo darem elogios a tudo o que rodeia o sector, e não se invoca a palavra Unicol, para mim é lamentável.

Ou os nossos políticos e governantes andam mal informados ou têm falta de coragem. E coragem para mim é liberdade e liberdade de expressão.

Porque, seguramente não haverá muitas empresas nos Açores com trajetória semelhante. Apesar disso, temos que dizê-lo, são sempre mais as críticas do que as referências positivas a esta tão importante organização e à sua evolução.

Mas, se o passado não nos envergonha, não quer dizer que estejamos satisfeitos em toda a linha: há sempre margem para fazer mais e melhor.

A maior frustração da Unicol e dos seus responsáveis é o preço pago aos produtores de leite: é baixo, em termos absolutos, mas, acima de tudo, é baixo no contexto dos Açores, quando não o devia ser.

A maior pedra no sapato na relação entre a Unicol e a Lactogal é o preço do leite. Tem sido objeto de muitas discussões, mas os resultados tardam em aparecer. É justo referir que sentimos da parte da atual administração da Lactogal um maior empenhamento em ultrapassar esta delicada questão, nomeadamente através de investimentos em curso e programados para incrementar a valorização dos produtos fabricados na Pronicol. É imperativo que tal aconteça.

Qualquer empresa é influenciada pela evolução da economia em geral, que nas últimas décadas ficou marcada pela globalização, mas também pelo contexto local e pelas decisões políticas dos nossos governantes.

Nos Açores, a única atividade económica que quebra a barreira da nossa pequenez é o sector dos lacticínios: representamos cerca de 1/3 da produção nacional, posição que nos destaca e que devemos fortalecer.

Por isso, não compreendemos por que razão, de há uns anos a esta parte, foram tomadas sucessivas medidas destinadas a reduzir a produção de leite – apoio à redução das entregas e apoios à conversão de leite para carne – com o falso argumento de que tais medidas iriam contribuir para o aumento dos preços ao produtor.

É uma distorcida interpretação da lei da oferta e da procura, que só funcionaria em espaços fechados, o que não é o caso. Não há espaços vazios nos mercados e o que os Açores não ocuparem, outros irão preencher. Medidas pontuais e articuladas podem fazer sentido para controlar excessos de produção; medidas permanentes e unilaterais, sem ouvir a indústria, são no mínimo ineficazes para não dizer prejudiciais.

Outra medida com a qual discordamos é o incentivo ao aumento da capacidade transformadora que está em curso na ilha Terceira. Radica num diagnóstico errado uma vez que não há défice de transformação na ilha, mas sim de valorização, que não se resolve com novas fábricas.

Quando se erra no diagnóstico, dificilmente se pode acertar na terapêutica.

E, neste caso, vai à revelia de tudo o que se tem vindo a ser feito um pouco por todo o mundo, nomeadamente na Europa, onde se assiste a movimentos de concentração, mesmo entre empresas de grande dimensão, para as tornar mais fortes e competitivas.

Se o mundo em que vivemos não para de nos surpreender e angustiar, tantos são os atropelos à ordem internacional a que temos vindo a assistir e que acabam por nos afetar a todos, dispensávamos muito bem estas nossas irracionalidades caseiras. Mas há coisas que estão para além do nosso controlo e que temos que integrar nos nossos processos de decisão.

Continuamos a acreditar que a produção de leite tem futuro nos Açores e nas ilhas Terceira e Graciosa, em particular. O peso da história destes 80 anos deve motivar-nos para continuar a conferir à Unicol, e à parceria com a Lactogal, o papel principal no futuro dos lacticínios na nossa área geográfica de intervenção.

Em tempos de incerteza e de ameaças várias, temos de assumir a responsabilidade de incutir confiança à nossa base social, e de demonstrar, com evidências, que o nosso projeto é o mais sólido de entre todos os existentes na Região Autónoma do Açores.

O futuro está aí. Contem connosco.